Conservação Dos Testudines

06/08/2009 at 06:14 (Conservação, Répteis, Testudines, Vertebrados)

Muitas espécies de quelônios apresentam baixas taxas de cescimento e requerem longos períodos para atingir a maturidade. Essas são características que predispõem uma espécie ao risco de extinção quando condições variáveis aumentam a mortalidade dos adultos ou eduzem drasticamente a entrada de jovens na população. A situação difícil dos grandes jabutis e das tartarugas marinhas é particularmente séria, em parte porque essas espécies estão entre as maiores e de crescimento mais lento, e também porque outros aspectos de sua biologia as expõem a riscos adicionais.

Uma tartaruga-verde com papilomas cutâneos. Esses tumores, provalvemente causados por um vírus, foram encontrados na maioria das espécies de tartarugas marinhas e em quase todo o mundo (Herbst, 1994). Os tumores crescem até atingir mais de 30 centímetros de diâmetro e aparecem em qualque superfície coberta de pele. São especialmente comuns na conjuntiva dos olhos e podem crescer sobre a córnea. Não foram registrados tumores nas tartarugas-verdes da lagoa Indian River, Flórida, até 1982; mas em 1994 cerca de 50 por cento das tartarugas-verdes estavam afetadas. O primeiro registro de papiloma nas tartarugas-verdes na baía de Kaneohe, Havaí, ocorreu em 1958. Desde 1989, a incidência variou de 49-92 por cento. Os tumores podem ser fatais e o aumento de sua frequência é um desenvolvimento sinistro para espécies já ameaçadas (Herbst, 1994).

Uma tartaruga-verde com papilomas cutâneos. Esses tumores, provalvemente causados por um vírus, foram encontrados na maioria das espécies de tartarugas marinhas e em quase todo o mundo (Herbst, 1994). Os tumores crescem até atingir mais de 30 centímetros de diâmetro e aparecem em qualque superfície coberta de pele. São especialmente comuns na conjuntiva dos olhos e podem crescer sobre a córnea. Não foram registrados tumores nas tartarugas-verdes da lagoa Indian River, Flórida, até 1982; mas em 1994 cerca de 50 por cento das tartarugas-verdes estavam afetadas. O primeiro registro de papiloma nas tartarugas-verdes na baía de Kaneohe, Havaí, ocorreu em 1958. Desde 1989, a incidência variou de 49-92 por cento. Os tumores podem ser fatais e o aumento de sua frequência é um desenvolvimento sinistro para espécies já ameaçadas (Herbst, 1994).

A conservação dos jabutis e das tartaugas marinhas é um assunto de interesse intercional e levou à fundação de uma nova publicação, Chelonian Conservation and Biology.
Os maiores jabutis atuais são encontrados nas ilhas Galápagos e Aldabra. O relativo isolamento dessas massas de terra pequenas e inóspitas (para os humanos) provavelmente tem sido um fator importante para a sobrevivência dos jabutis.  A colonização humana das ilhas trouxe consigo animais domésticos, como cabras e asnos, que competem com os jabutis pelas quantidades limitadas de vegetação que são encontradas nesses habitats áridos, além de cães, gatos e ratos, que predam ovos e filhotes de jabutis.
A distribuição geográfica limitada de um jabuti que ocorre em uma única ilha torna-o vulnerável à extinção. Em 1985, e novamente em 1994, as queimadas na ilha Isabela, no arquipélago de Galápagos, puseram em risco os 20 indivíduos remanescentes de Geochelone guntheri e enfatizaram a vantagem de deslocar alguns ou todos os Testudines até a estação de reprodução operada pela Estação de Pesquisas Charles Darwin, na ilha Santa Cruz. Essa estação bateu recordes de sucessos na reprodução e liberação de outra espécie de jabuti de Galápagos, G. nigra hoodensis, nativa da ilha de Española. No início da década de 1960, apenas 14 indivíduos dessa espécie foram localizados. Todos eram adultos e aparentemente não haviam se reproduzido com sucesso havia muitos anos. Todos os jabutis foram transferidos para a Estação de Pesquisas, onde se produziram os primeiros filhotes em 1971. Em 24 de março de 2000, o milésimo jabuti nascido em cativeiro foi solto em Española. Essa história de sucesso mostra que os programas de reprodução em cativeiro e soltura, cuidadosamente controlados, podem ser um método eficaz de conservação de espécies de Testudines ameaçados. Entretanto, esses programas também trazem riscos inerentes.

Geochelone guntheri

Geochelone guntheri

G. nigra hoodensis

G. nigra hoodensis

Faunas inteirs de quelônios estão ameaçadas em algumas áreas. Quase todas as espécies de quelônios do Sudeste Asiático estão hoje em risco por causa das mudanças econômicas e políticas na região (van Dijk et al., 2000). Na China, os quelônios são tradicionalmente utilizados como alimentação e por seus supostos benefícios medicinais. Uma pesquisa de dois dias em apenas dois entrepostos de alimentos chineses encontrou cerca de 10000 quelônios à venda. Se a rotatividade da mercadoria for de uma semana, numa estimativa conservadora, então aqueles dois entrepostos consumiriam mais de 250000 quelônios po ano. Quando esa tava é extrapolada para todos os entrepostos chineses, a estimativa sobe para 12 milhões de quelônios vendidos por ano somente na China (Altherr e Feyer, 2000).
Os Testudines são animais de vida longa e com baixo índice reprodutivo, e essas são exatamente as características erradas para resistir com sucesso à predação intensa. Bem pouco se conhece sobre a história natural dos Testudines chineses. Na verdade, algumas espécies como Cuora mccordi, só são cientificamente conhecidas a partir de espécimes adquiridos em entrepostos – populações selvagens nunca foram descritas. Talvez essas espécies nunca venham a ser conhecidas em estado selvagem; há vários anos não se vêem espécimes nos entrepostos e é possível que a espécie esteja extinta.

Cuora mccordi

Cuora mccordi

À medida que se esgotam as populações de Testudines na China, esses animais vêm sendo cada vez mais importados de outros países do Sudeste Asiático. Como a China é um país gigantesco e a movimentação interna é restringida, especialmente para estrangeiros, não há dados disponíveis. Registros de Hong-Kong mostram que a importação de Testudines para fins alimentares cresceu de 139200 quilos em 1977 para 1800024 quilos aoenas nos primeiros dez meses de 1994. Estima-se que o Vietnã envie de 1600 a 16000 quilos de Testudines por dia para a China! Não existe qualquer controle efetivo desse tráfico. Espécies protegidas por leis nacionais e convenções internacionais estão incluídas e os Testudines são coletados em reservas naturais.
Embora a China seja considerada o maior “buraco negro” de Testudines (Behler, 2000), ela de modo algum está sozinha. Madagascar é o lar de muitas outras espécies em perigo, inclusive jabutis. Mesmo protegidas por tratados internacionais, essas espécies são contrabandeadas para fora do país em grandes quantidades a fim de serem vendidas como animais de estimação no Japão, na Europa e na América do Norte, onde atingem altos preços. Nos Estados Unidos, as espécies protegidas são coletadas e vendidas ilegalmente como animais de estimação; as espécies que estão em maior perigo de extinção alcançam os preços mais altos. Além disso, todas as espécies de Testudines enfrentam ameaças que vão desde a morte nas estradas e a perda do habitat até servirem de alvo para atiradores quando tomam sol sobre um tronco. Não seria exagero dizer que “os Testudines estão com um terrível problema” (Rhodin, 2000). A crise de conservação dos Testudines é tão séria quanto aquela enfrentada pelos anfíbios.

ALTHERR, A. & FREYER, D. Asian turtles are threatenes by extinction. Turtle and Tortoise Newsletter. Nº 1:7-11, 2000.

BEHLER, J. Letter from the IUCN tortoise and freshwater turtle specialist group. Turtle and Tortoise Newsletter. Nº 1:4-5, 2000.

HERBST, L. H. Fibropapillomatosis of marine turtles. Anual Review of Fish Diseases, 4:389-425, 1994.

POUGH, H. F., JANIS, C. M. & HEISER, J. B. A Vida Dos Vertebrados 4ª Edição, Atheneu Editora, São Paulo, 2008.

RHODIN, A. G. Publishers Editorial: Turtle Survival Crisis. Turtle and Tortoise Newsletter. Nº 1:2-3, 2000.

VAN DIJK, P. P. ei al. (eds). Asian turtle trade. Chelonian Research Monographs, Nº2. Lunenburg, MA: Chelonian Research Foundation, 2000.

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5 Comentários

  1. Maurício said,

    Na minha opinião, a reportagem mostra, mais uma vez, a ineficiência de um modelo conservacionista amplamente adotado (pelo Brasil inclusive) mas que tem pouca eficácia no combate a exploração dos recursos naturais: tratar “conservação” com isolamento e restrição de acesso. Não funciona.
    Se há um mercado para tais expécies (como há para muitas outras) uma possível solução seria a reprodução para fins comerciais. Claro que não estou falando de algo improvisado, sem estudos adequados e sem a cautela necessária. Mas, como a própria reportagem mostrou, a reprodução em cativeiro pode alcançar taxas elevadas de ferilização e eclosão (mais altas que na natureza). Assim, parte da “produção” estaria destinada a reposição dos indivíduos da espécie em seu habitat original. Os demais, ao comércio. Tal prática poderia levar a redução (eliminação) da exploração das espécies (caça, captura e coleta) no meio ambiente, permitindo que a comercialização suprisse a demanda do mercado. E um aproveitamento sustendado permite que se estude e conheça as espécies, pois haverá recursos oriundos da comercialização.
    Uma mudança pragmática se faz necessária. Principalmente se a esperada preservação das espécies não estiver ocorrendo.
    Saudações.

  2. biosystem said,

    Olá Maurício, obrigado pelo seu comentário. A sua opinião é defendida por muitas outras pessoas, mas a questão é bem mais complexa.
    Primeiramente, o texto citou o exemplo de um caso em que a criação e posterior soltura dos animais obteve sucesso graças a dois fatores essenciais disponíveis aos pesquisadores conservacionistas: tempo e dinheiro. Este tipo de programa nem sempre obtem o sucesso esperado a curto prazo, pois são muitos os fatores comportamentais que influenciam o seu desenvolvimento. Além disso, esses projetos sempre trazem consigo um risco inerete: o da soltura, em ambientes selvagens, de animais criados em cativeiro (esse será o tema do próximo post).
    Quanto à questão comercial, as consequências de uma atitude mal planejada que vise o lucro rápido podem ser desastrosas. Na maioria dos casos, as pessoas que lidam com a caça e captura desses animais já o fazem por gerações… seria preciso pensar numa solução para que estes trabalhadores não se vejam desempregados do dia para a noite, já que a forma de se obter os animais mudaria radicalmente. É preciso pensar também para onde esta indo o imenso volume de dinheiro movimentado nesses entrepostos comerciais. Muitas vezes, o conservacionista acaba lidando com pessoas perigosas que, por questões óbvias de segurança pessoal, seria melhor manter certa distância.
    Obrigado pela sua visita!

  3. Maurício said,

    Olá
    Com certeza é uma questão complexa. Como eu escrevi, o processo de criação e manejo sustentável de espécies não é algo que possa ser feito de improviso, sem estudos e sem a devida cautela. No entanto, nem sempre é necessário um grande investimento para se obter sucesso num projeto deste tipo. Sei da experiência de um agricultor paranaense que conseguiu cultivar a palmeira Jussara com taxas de germinação e de crescimento de mudas admiráveis. E isso com mínimos recursos. O manejo ambiental nem sempre é caro. Da mesma forma, não é possível “sair por ai” reintroduzindo animais criados em cativeiro em um “matinho qualquer”. Em locais onde existam comunidades equilibradas, não se deve proceder a introdução de novos espécimes, mesmo que estes sejam nativos da região.
    Há comunidades específicas que tem na sua cultura a caça artezanal para a subistência. Hoje em dia, tais populações são, na sua maioria, pouco significativas no papel de degradação ambiental. A não ser em áreas já devastadas ou comprometidas (o que dificilemente resultado da ação destas mesmas comunidades), tais grupos não represetam perigo para fauna e flora locais.
    A ação predatória de grandes grupos de interesses específicos (como os fornecedores ilegais de matérias primas para a medicina tradicional chinesa) tem de ser combatida em todas as frentes possíveis. Econômica incluída. Para tais grupos, se houver uma alternativa economicamente viável, que não a atividade predatória, existe uma grande chance de que estes mundem o seu modus operandi.
    Mas isso sem deixar de lado a fiscalização. E as sansões passíveis também.
    De forma resumida: o aproveitamento econômico de uma espécie deve andar de mãos dadas com a sua conservação no meio ambiente. Se assim não ocorrer, a vítima será (sempre) a ecologia.
    Obrigado pela oportunidade de expressar minhas opiniões a respeito do assunto.
    Saudações.

  4. Everton Torres said,

    Sou plenamente de acordo com a reprodução em cativeiro não só dessas espécies, mas de qualquer outra que esteja correndo risco de serem extintas! Pois com os cuidados necessários, essas espécies teriam um melhor e mais rápido desenvolvimento, longe de serem alvos de caçadores e predadores. É claro que, alguns riscos poderão vir à tona. Como por exemplo, o fato da difícil adaptação dessas espécies ao seu habitat natural, assim como também, a má ação de pessoas que criam essas espécies em cativeiro para se beneficiarem financeiramente através da venda ilegal. Ato vergonhoso para uma população que não costuma preservar o meio ambiente, tão pouco a fauna nele existentes!

  5. SAbrantes said,

    Vamos por partes…
    Esse lance de criação comercial pode ser uma saída para uma parte da população, no entanto, a pesca (ou caça) de Quelônios por parte da população ribeirinha nunca vai deixar de existir, é cultura e da mesma forma que brigam para que as línguas nativas não morram, a caça destes animais deveria ter o mesmo status.

    Quanto ao lance de reintrodução de espécies a coisa já é bem mais complicada. Todo mundo fala que isso é bom pro bicho que foi solto, mas as pessoas não param pra pensar que isto pode ser um impacto ainda maior que a prórpia retirada do animal de seu habitat.
    Ainda temos muito o que aprender antes de sair soltando bicho.

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