Pérolas

27/08/2009 at 12:03 (Conservação, Invertebrados, Moluscos)

Apesar das conchas dos bivalves serem fortemente fixadas à musculatura, ocasionalmente alguns corpos estranhos, tais como um grão de areia ou um parasita, penetram no espaço existente entre a concha e o animal. O objeto torna-se um núcleo em volta do qual são depositadas camadas concêntricas de nácar da concha, resultando na formação de uma pérola. Se o objeto se move com frequência durante a secreção, a pérola pode ser esférica ou ovóide. Mais comumente, porém, a pérola em desenvolvimento é aderida à concha ou torna-se completamente embutida nesta.
Pérolas podem ser produzidas pela maioria dos moluscos que possuem concha, mas somente aqueles com hipóstraco (camada mais interna da concha) nacarado produzem pérolas com valor comercial. As pérolas naturais mais requintadas são produzidas pelas ostras perlíferas Pinctada margaritifera e P. mertensi, que habitam o Pacífico tropical e subtropical.

Pinctada margaritifera

Pinctada margaritifera

As fases do crescimento de espécies cultivadas com finalidades comerciais são bem conhecidas. Ostras (Ostreidae), por exemplo, atingem tamanho comercializável de um a três anos dependendo da espécie, latitude, e várias outras condições ambientais. Ostras recém-assentadas, chamadas sementes, são coletadas por meio de placas de cerâmica, gravetos ou outros objetos e deixadas para crescer até poucos centímetros de comprimento. Essas sementes de ostra são, então, distribuídas sobre balsas de cultivo, nas quais crescem até o momento da sua colheita. Em bancos naturais de ostras, a média de vida desses organismos é ainda incerta. Certamente alguns indivíduos vivem mais do que 10 anos.
Há dois métodos de produção de pérolas cultivadas, iniciando-se com um núcleo-semente e com um núcleo em forma de conta. Algumas pérolas cultivadas são iniciadas a partir de fragmentos microscópicos, “sementes”, removidos de conchas de bivalves de água doce (unionídeos), e cada semente colocada dentro do espaço extrapalial de uma ostra perlífera. A ostra reveste a semente com uma camada de nácar, de maneira a produzir uma pérola-semente de um ano, que é então transplantada para uma outra ostra. Uma pérola de tamanho comercial é obtida três anos após o transplante.
Pérolas obtidas pelo método de núcleos em forma de contas são produzidas mais rapidamente, por serem iniciadas a partir de contas esféricas, também removidas da concha de um bivalve de água doce. Essas contas são, de fato, apenas um pouco menores do que as pérolas finais. A conta é envolvida em um fragmento do tecido do manto e transportada para o interior do lobo do manto ou de outros tecidos (frequentemente a gônada) de uma outra ostra perlífera. Uma fina camada superficial de nácar, com cerca de 1 mm de espessura, é então depositada ao redor da conta.
Em torno de 12 espécies de bivalves de água doce nativas da América do Norte, ocorrendo de Wisconsin até o Alabama, suprem em torno de 95% da demanda pelo estoque de contas, proveniente da indústria de pérolas que emprega esse tipo de iniciador. Em 1994, 2700 toneladas desses bivalves nativos foram extraídas para esse propósito, somente no Tenessee. Recentemente, novas técnicas vêm sendo desenvolvidas para o cultivo de pérolas de alta qualidade em bivalves de água doce, mas infelizmente os novos métodos continuam a depender de contas removidas de outros bivalves de água doce. A fauna nativa extremamente diversificada de bivalves do sudoeste dos Estados Unidos esta ameaçada por atividades humanas, incluindo extrativismo, assoreamento, represamentos, poluição e a introdução de espécies exóticas.

RUPPERT, E. E., FOX, R.S., BARNES, R.D. Zoologia dos Invertebrados – Uma Abordagem Funcional-evolutiva. 7ª Edição, Editora Rocca, São Paulo, 2005.

Anúncios

Link permanente Deixe um comentário

Tartarugas Doentes

11/08/2009 at 09:50 (Conservação, Répteis, Testudines, Vertebrados)

O jabuti-do-deserto (Gopherus agassizi) é um dos maiores quelônios terrestres da América do Norte. Sua distribuição geográfica inclui o canto sudoeste de Utah, o terço sudoeste do Arizona, partes adjacentes de Nevada e da Califórnia e se estende para o sul até o México.

Gopherus agassizi

Gopherus agassizi

As populações de jabutis-do-deserto declinaram desde a década de 1950, à medida que a atividade humana invadia o habitat do deserto. Entre 1979 e 1989, a maioria das populações de jabutis do desertos de Mohave e Colorado diminui de 30 a 70 por cento. A situação tornou-se ainda mais grave com o aparecimento da doença das vias respiratórias superiores (DVRS), que ataca os jabutis-do-deserto, muitas vezes com resultados fatais. De início, os quelônios infectados apresentavam corrimento nasal, que se torna progressivamente pior até que os animais exsudam espuma pelas narinas, ofegam ao respirar, param de comer, definham e por fim morrem. Em 1988, os jabutis da Área Natural dos Jabutis-Do-Deserto, no Condado de Kern, Califórnia, apresentaram pela primeira vez os sintomas da DVRS (Jacobson et al., 1991). Em 1989, foram encontrados 627 jabutis mortos e 43 por cento dos jabutis vivos da Área Natural apresentavam sintomas da DVRS.

O defluxo nasal e os olhos inchados são sinais de que este jabuti esta infectado com Mycoplasma, que causa doença das vias respiratórias superiores

O defluxo nasal e os olhos inchados são sinais de que este jabuti esta infectado com Mycoplasma, que causa doença das vias respiratórias superiores

Uma grande quantidade de bactérias foi cultivada a partir dos dutos nasais de tartarugas doentes, incluindo Mycoplasma, que mais tarde foi identificada como o agente causador da doença (Jacobson et al. 1995). Os jabutis-do-deserto são animais de estimação populares no sudoeste  do deserto e um grande número de quelônios domésticos esta infectado por Mycoplasma. A infecção talvex tenha sido introduzida na Área Natural do Jabutis-Do-Deserto quando jabutis de estimação foram soltos, e sua propagação teria se acelerado devido ao mau estado físico dos jabutis selvagens, resultante da degradação do habitat e de uma seca prolongada. As infecções por Mycoplasma são notoriamente de difícil cura. Os jabutis cativos podem ser tratados com uma combinação de antibióticos, mas não há um tratamento prático para os jabutis selvagens.

Mycoplasma

Mycoplasma

A DVRS foi registrada atualmente em uma população de jabutis-toupeira (Gopherus polyphenus) da ilha Sanibel, ao largo da costa da Flórida. Mais uma vez parece que jabutis cativos introduziram a infecçõ na população selvagem: até 1978 soltavam-se na ilha Sanibel os jabutis usados em corridas, os quais, infectados, podem ter carregado consigo a bactéria Mycoplasma.

Gopherus polyphemus

Gopherus polyphemus

Esses exemplos enfatizam o risco de soltar em populações selvagens animais que foram mantidos em cativeiro. Os programas de reprodução em cativeiro devem tomar medidas extraordinárias para garantir que os animais que serão soltos passem por um período de quarentena, em instalações isoladas de outros animais. Uma colônia reprodutiva deveria ser auto-suficiente; uma vez estabelecida, nenhum animal externo deveria entrar ou sair. Mesmo as vestimentas dos tratadores dos animais carregam agentes patogênicos, por isso deve ser providenciado um vestiário onde os tratadores possam se lavar e trocar de roupa ao entrar e sair. Essas precauções exigem tempo e dinheiro, mas pode ser desastroso negligenciá-las.

JACOBSON, E.R. et al. Chronic upper respiratory disease of free-ranging desert tortoises (Xerobates agassizi). Journal of Wildlife Diseases 27:296-316, 1991.

JACOBSON, E.R. et al. Mycoplasma and the desert tortoise (Gopherus agassizii) in Las Vegas Valley, Nevada. Chelonian Conservation and Biology 1:279-284, 1995.

POUGH, H. F., JANIS, C. M. & HEISER, J. B. A Vida Dos Vertebrados 4ª Edição, Atheneu Editora, São Paulo, 2008.

Link permanente 2 Comentários

Conservação Dos Testudines

06/08/2009 at 06:14 (Conservação, Répteis, Testudines, Vertebrados)

Muitas espécies de quelônios apresentam baixas taxas de cescimento e requerem longos períodos para atingir a maturidade. Essas são características que predispõem uma espécie ao risco de extinção quando condições variáveis aumentam a mortalidade dos adultos ou eduzem drasticamente a entrada de jovens na população. A situação difícil dos grandes jabutis e das tartarugas marinhas é particularmente séria, em parte porque essas espécies estão entre as maiores e de crescimento mais lento, e também porque outros aspectos de sua biologia as expõem a riscos adicionais.

Uma tartaruga-verde com papilomas cutâneos. Esses tumores, provalvemente causados por um vírus, foram encontrados na maioria das espécies de tartarugas marinhas e em quase todo o mundo (Herbst, 1994). Os tumores crescem até atingir mais de 30 centímetros de diâmetro e aparecem em qualque superfície coberta de pele. São especialmente comuns na conjuntiva dos olhos e podem crescer sobre a córnea. Não foram registrados tumores nas tartarugas-verdes da lagoa Indian River, Flórida, até 1982; mas em 1994 cerca de 50 por cento das tartarugas-verdes estavam afetadas. O primeiro registro de papiloma nas tartarugas-verdes na baía de Kaneohe, Havaí, ocorreu em 1958. Desde 1989, a incidência variou de 49-92 por cento. Os tumores podem ser fatais e o aumento de sua frequência é um desenvolvimento sinistro para espécies já ameaçadas (Herbst, 1994).

Uma tartaruga-verde com papilomas cutâneos. Esses tumores, provalvemente causados por um vírus, foram encontrados na maioria das espécies de tartarugas marinhas e em quase todo o mundo (Herbst, 1994). Os tumores crescem até atingir mais de 30 centímetros de diâmetro e aparecem em qualque superfície coberta de pele. São especialmente comuns na conjuntiva dos olhos e podem crescer sobre a córnea. Não foram registrados tumores nas tartarugas-verdes da lagoa Indian River, Flórida, até 1982; mas em 1994 cerca de 50 por cento das tartarugas-verdes estavam afetadas. O primeiro registro de papiloma nas tartarugas-verdes na baía de Kaneohe, Havaí, ocorreu em 1958. Desde 1989, a incidência variou de 49-92 por cento. Os tumores podem ser fatais e o aumento de sua frequência é um desenvolvimento sinistro para espécies já ameaçadas (Herbst, 1994).

A conservação dos jabutis e das tartaugas marinhas é um assunto de interesse intercional e levou à fundação de uma nova publicação, Chelonian Conservation and Biology.
Os maiores jabutis atuais são encontrados nas ilhas Galápagos e Aldabra. O relativo isolamento dessas massas de terra pequenas e inóspitas (para os humanos) provavelmente tem sido um fator importante para a sobrevivência dos jabutis.  A colonização humana das ilhas trouxe consigo animais domésticos, como cabras e asnos, que competem com os jabutis pelas quantidades limitadas de vegetação que são encontradas nesses habitats áridos, além de cães, gatos e ratos, que predam ovos e filhotes de jabutis.
A distribuição geográfica limitada de um jabuti que ocorre em uma única ilha torna-o vulnerável à extinção. Em 1985, e novamente em 1994, as queimadas na ilha Isabela, no arquipélago de Galápagos, puseram em risco os 20 indivíduos remanescentes de Geochelone guntheri e enfatizaram a vantagem de deslocar alguns ou todos os Testudines até a estação de reprodução operada pela Estação de Pesquisas Charles Darwin, na ilha Santa Cruz. Essa estação bateu recordes de sucessos na reprodução e liberação de outra espécie de jabuti de Galápagos, G. nigra hoodensis, nativa da ilha de Española. No início da década de 1960, apenas 14 indivíduos dessa espécie foram localizados. Todos eram adultos e aparentemente não haviam se reproduzido com sucesso havia muitos anos. Todos os jabutis foram transferidos para a Estação de Pesquisas, onde se produziram os primeiros filhotes em 1971. Em 24 de março de 2000, o milésimo jabuti nascido em cativeiro foi solto em Española. Essa história de sucesso mostra que os programas de reprodução em cativeiro e soltura, cuidadosamente controlados, podem ser um método eficaz de conservação de espécies de Testudines ameaçados. Entretanto, esses programas também trazem riscos inerentes.

Geochelone guntheri

Geochelone guntheri

G. nigra hoodensis

G. nigra hoodensis

Faunas inteirs de quelônios estão ameaçadas em algumas áreas. Quase todas as espécies de quelônios do Sudeste Asiático estão hoje em risco por causa das mudanças econômicas e políticas na região (van Dijk et al., 2000). Na China, os quelônios são tradicionalmente utilizados como alimentação e por seus supostos benefícios medicinais. Uma pesquisa de dois dias em apenas dois entrepostos de alimentos chineses encontrou cerca de 10000 quelônios à venda. Se a rotatividade da mercadoria for de uma semana, numa estimativa conservadora, então aqueles dois entrepostos consumiriam mais de 250000 quelônios po ano. Quando esa tava é extrapolada para todos os entrepostos chineses, a estimativa sobe para 12 milhões de quelônios vendidos por ano somente na China (Altherr e Feyer, 2000).
Os Testudines são animais de vida longa e com baixo índice reprodutivo, e essas são exatamente as características erradas para resistir com sucesso à predação intensa. Bem pouco se conhece sobre a história natural dos Testudines chineses. Na verdade, algumas espécies como Cuora mccordi, só são cientificamente conhecidas a partir de espécimes adquiridos em entrepostos – populações selvagens nunca foram descritas. Talvez essas espécies nunca venham a ser conhecidas em estado selvagem; há vários anos não se vêem espécimes nos entrepostos e é possível que a espécie esteja extinta.

Cuora mccordi

Cuora mccordi

À medida que se esgotam as populações de Testudines na China, esses animais vêm sendo cada vez mais importados de outros países do Sudeste Asiático. Como a China é um país gigantesco e a movimentação interna é restringida, especialmente para estrangeiros, não há dados disponíveis. Registros de Hong-Kong mostram que a importação de Testudines para fins alimentares cresceu de 139200 quilos em 1977 para 1800024 quilos aoenas nos primeiros dez meses de 1994. Estima-se que o Vietnã envie de 1600 a 16000 quilos de Testudines por dia para a China! Não existe qualquer controle efetivo desse tráfico. Espécies protegidas por leis nacionais e convenções internacionais estão incluídas e os Testudines são coletados em reservas naturais.
Embora a China seja considerada o maior “buraco negro” de Testudines (Behler, 2000), ela de modo algum está sozinha. Madagascar é o lar de muitas outras espécies em perigo, inclusive jabutis. Mesmo protegidas por tratados internacionais, essas espécies são contrabandeadas para fora do país em grandes quantidades a fim de serem vendidas como animais de estimação no Japão, na Europa e na América do Norte, onde atingem altos preços. Nos Estados Unidos, as espécies protegidas são coletadas e vendidas ilegalmente como animais de estimação; as espécies que estão em maior perigo de extinção alcançam os preços mais altos. Além disso, todas as espécies de Testudines enfrentam ameaças que vão desde a morte nas estradas e a perda do habitat até servirem de alvo para atiradores quando tomam sol sobre um tronco. Não seria exagero dizer que “os Testudines estão com um terrível problema” (Rhodin, 2000). A crise de conservação dos Testudines é tão séria quanto aquela enfrentada pelos anfíbios.

ALTHERR, A. & FREYER, D. Asian turtles are threatenes by extinction. Turtle and Tortoise Newsletter. Nº 1:7-11, 2000.

BEHLER, J. Letter from the IUCN tortoise and freshwater turtle specialist group. Turtle and Tortoise Newsletter. Nº 1:4-5, 2000.

HERBST, L. H. Fibropapillomatosis of marine turtles. Anual Review of Fish Diseases, 4:389-425, 1994.

POUGH, H. F., JANIS, C. M. & HEISER, J. B. A Vida Dos Vertebrados 4ª Edição, Atheneu Editora, São Paulo, 2008.

RHODIN, A. G. Publishers Editorial: Turtle Survival Crisis. Turtle and Tortoise Newsletter. Nº 1:2-3, 2000.

VAN DIJK, P. P. ei al. (eds). Asian turtle trade. Chelonian Research Monographs, Nº2. Lunenburg, MA: Chelonian Research Foundation, 2000.

Link permanente 5 Comentários