Hábitos de vida e a Conservação de Tubarões

02/06/2009 at 06:14 (Conservação, Peixes, Vertebrados)

Quaisquer que sejam os comportamentos sociais e modos reprodutivos, os tubarões produzem relativamente poucos descendentes durante a vida de uma única fêmea. Este é um padrão biológico que depende de altas taxas de sobrevivência dos animais jovens e de expectativa de vida longa para os adultos. A fecundação interna e as características dos hábitos de vida que as acompanham evoluíram amplamente nos tubarões há 350 milhões de anos, e tem sido uma estratégia bem sucedida em todo o oceano desde então. Agora, as alterações do habitat e a predação desenfreada, provocada por humanos, ameaçam a sobrevivência de muitas espécies. Embora os tubarões jovens sejam relativamente grandes, quando comparados a outros peixes, eles estão sujeitos a predação, especialmente por outros tubarões. Muitas espécies dependem dos locais de cuidado parental – geralmente águas rasas costeiras, as quais estão mais sujeitas às pertubações e alterações humanas. Além disso, os tubarões adultos estão cada vez mais se tornando presas para os humanos. Uma expansão rápida da pesca comercial e recreativa de tubarões ameaça muitas espécies destes predadores longevos e de reprodução vagarosa.
As pessoas gostam de comer tubarões, sabendo ou não o que estão comendo. O cação bagre (Squalus acanthias) tem sido, por muito tempo, servido como “peixe e batatas fritas”, na Europa, e tem aumentado a sua entrada no mercado de alimentos dos Estados Unidos, na década de 1980. Filés de tubarões mako (cortes de tubarões de dois gêneros, o Isurus e o Lamma) se tornaram uma alternativa ao peixe espada nas prateleiras de frutos do mar dos supermercados americanos. A Europa já observa quedas dramáticas das populações destes tubarões pelos pescadores comerciais. Por exemplo, a Noruega elegeu o Lamma para a pesca intensiva e, inicialmente, coletou 8.060 toneladas, em um único ano, no Atlântico nordeste. Mas em sete anos, os números abaixaram para 207 toneladas e, desde a década de 1970, os noruegueses foram incapazes de capturar mais de 100 toneladas por ano. Apesar de tais histórias, os Estados Unidos não regulamentaram a pesca de tubarões até 1993 e não fez nada para controlar a pesca do cação-bagre até anos atrás. No ano 2000, proibições sazonais de emergência sobre todos os cações-bagre capturados foram implantadas assim que as quotas anuais de pesca eram completadas meses antes da cota anual terminar. A avaliação das pescas anuais padronizadas mostram que, apesar das reclamações sobre o grande número de cações-bagre pescados industrialmente, a biomassa das fêmeas desses cações tem caindo significativamente. Essas mesmas taxas mostram que de 1997 a 2003 os juvenis de cação-bagre tem se tornado raros ou virtualmente ausentes.

Cação-bagre

Cação-bagre

 

Isurus

Isurus

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ao mesmo tempo que o consumo doméstico de tubarões aumentava, uma força econômica ainda mais forte explodia no cenário – a exportação das nadadeiras (“barbatanas”) de tubarão para os mercados asiáticos. A sopa de “barbatana” de tubarão, a qual acredita-se ter propriedades medicinais, pode custar US$ 90 ou mais nos restaurantes da Ásia. Nadadeiras (“barbatanas”) secas de tubarão podem custar no atacado de Hong Kong US$ 500 o quilo; nos Estados Unidos, um quilo de nadadeiras frescas é vendiso por US$ 200 ou mais. O sucesso  das economias asiáticas, durante as décadas de 1980 e 1990, criou um mercado quase que ilimitado para as nadadeiras. Porque o restante da carcaça não apresentava o mesmo valor que as nadadeiras, a prática de capturar tubarões, cortar as nadadeiras e descartar o restante do animal, vivo ou morto, de volta ao mar se tornou um fenômeno mundial. Este comércio cruel e de desperdício chegou às águas americanas de forma contundente. Espinhel de linha longa é um método de pesca no qual estendem-se milhares de linhas de alguns metros de comprimento com anzois presos a elas. Na década de 1990 longos espinheis tinham colocado milhões de anzois ao longo da costa leste dos Estados Unidos e do Golfo anualmente (8,8 milhões apenas em 1995). Em 1997, espinheis havaianos capturaram mais de 100.000 tubarões, e descartaram 98,6 por cento da massa coletada. As capturas de tubarões e raias mais do que quadruplicou, chegando a 800.000 toneladas métricas a cada ano ( mais de 70 milhões de tubarões). Não é surpresa que, somente nos Estados Unidos, várias espécies de tubarões vivenciaram reduções populacionais de 50 a 85 por cento (algumas mais de 89 por cento) nos últimos 8 a 15 anos (Baum et al. 2003).

Os Elasmobranchii recebem pouca atenção das instituições que regulam a pesca internacional, e a maioria das nações não têm nenhum manejo efetivo de pescarias. Muitos tubarões comercialmente importantes são pelágicos, migrando por diversas fronteiras políticas e gastam porções significativas de suas vidas em águas internacionais, para as quais não há jurisdição política. Como resultado, medidas efetivas de preservação são difíceis de implementar. No ano de 2000, a House of Representatives norte-americana aprovou uma ampla proibição nacional da pesca de nadadeiras de tubarões, mas antes que a decisão fosse mandada ao Senado, os pescadores estavam montandi suas bases, do Havaí para regiões fora da jurisdição norte-americana. No final de 2003 a Assembleia Geral das Nações Unidas passou uma resolução solicitando as nações que proíbam a retirada de nadadeiras de tubarões. Infelizmente a resolução não inclui qualquer verba para fazer cumprir a proibição.
Devido a suas características biológicas, todos os Elasmobranchii são particularmente suscetíveis ao extermínio pela pesca. Eles crescem vagarosamente, alcançam tardiamente a maturidade sexual, produzem poucos descendentes de cada vez e devido à grande quantidade de energia investida nos jovens, as fêmeas não se reproduzem todo ano. Relativamente poucos indivíduos ocorrem em uma mesma área, exceto talvez, em momentos de reprodução ou devido a agregações sociais. Por exemplo, somente 9 a 14 grandes tubarões brancos foram observados, em um período de 5 anos, nas Ilhas de South Farallon, próximas a São Francisco. Os mesmos indivíduos retornavam a cada outono, quando o número de presas era alto. Quando apenas quatro tubarões brancos foram mortos, próximos a uma colônia de leões marinhos que os atraiu, os ataques sobre leões marinhos e focas caíram pela metade nos dois anos subsequentes. Especialistas no manejo de pesca dizem que há poucas chances das populações de muitas espécies de tubarões se recuperarem em menos de meio século, mesmo com as restrições à pesca.

BAUM, J. K., MYERS, R. A., KEHLER, D. G., WORM, B., HARLEY, S.J. & DOHERTY, P. A. 2003. Collapse and conservation of shark populations in the Northwest Atlantic. Science 299:389-392. 

POUGH, H. F., JANIS, C. M. & HEISER, J. B. A Vida Dos Vertebrados 4ª Edição, Atheneu Editora, São Paulo, 2008.

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4 Comentários

  1. jose luis said,

    gostaria de saber se as barbatanas de tubarão têm alguma propriedade medicinal para as dores reumáticas, artrose, artrite,etc.
    obrigado joséluis

  2. Renato said,

    Olá José Luis, obrigado pela visita! Já vi muitos anuncios de produtos que tem como matéria-prima as barbatanas de tubarão (que são nada mais nada menos do que a nadadeira dorsal do bicho), mas até agora não sei se esta cientificamente comprovado que estas nadadeiras tem alguma propriedade medicinal. Como sugestão, diria que seria melhor para você conversar com o seu médico antes de tomar qualquer medicamento.
    O que eu posso lhe dizer é que, do ponto de vista ecológico-social, o consumo das nadadeiras dos tubarões esta longe de ser sustentável. Recomendo a leitura deste artigo: http://www.faunabrasil.com.br/sistema/modules/news/article.php?storyid=1298

    Abraços.

  3. LIO said,

    VIDA LOKA

  4. anderson c mello said,

    eu amo estudar a vida dos tu mais queria saber se o tubarao vive em aguas rasas

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