Os Humanos e as Extinções do Pleistoceno

12/01/2010 at 11:38 (Conservação, Humanos)

Desde a aparição dos primeiros vertebrados, ao final do Cambriano ou Ordoviciano (entre 543 e 490 milhões de anos), a diversidade de vertebrados aumentou lentamente, ao longo das Eras Paleozóica e Mesozóica (um intervalo de tempo de aproximadamente 400 milhões de anos), e mais rapidamente durante os últimos cem milhões de anos. Este aumento geral foi interrompido por oito períodos de extinção, para os vertebrados aquáticos, e seis, para as formas terrestres (Benton, 1990). A extinção de espécies é tão normal quanto a sua formação e a duração das mesmas no registro fóssil parece ser de 1 milhão a 10 milhões de anos. Períodos de extinção em massa (uma redução de diversidade de 10 por cento ou mais) estão associadas com mudanças climáticas e com os seus impactos consequentes sobre a vegetação. Mas este padrão de espécies de vida relativamente longa,  fato correlacionado com as alterações de clima e vegetação, foi modificado no momento em que os humanos se tornaram um fator dominante em muitas partes do planeta (Wilson, 1992; Steadman, 1995).
Por exemplo,  o número de gêneros de mnamíferos da Era Cenozóica (a Era atual) atingiu um pico no Mioceno Médio (23 milhões de anos) e um segundo, no início do Pleistoceno (1,7 milhão de anos). Somente 60 por cento dos gêneros conhecidos do Pleistoceno são viventes atualmente, e as formas extintas incluem a maioria das espécies de grandes mamíferos terrestres – aqueles que pesavam mais de 20 quilogramas. Estes grandes mamíferos, somadas às enormes espécies de répteis e aves, são coletivamente chamados de megafauna do Pleistoceno. O termo é usualmente empregado às espécies da América do Norte, tais como as preguiças terrestres, os mamutes, os mastodontes e a preguiça gigante (do tamanho de um urso), mas outros continentes também tinham megafaunas que se tornaram extintas no Pleistoceno.
Os primeiros humanos que chegaram à Austrália se depararam com uma megafauna que incluía representantes de quatro grupos: marsupiais, aves que não voavam, tartarugas e equidnas. Os maiores animais terrestres australianos, no Pleistoceno, eram diversas espécies de mamíferos herbívoros do gênero Diprotodon, dos quais o maior, provavelmente, pesava cerca de 2000 quilogramas. Os maiores cangurus pesavam 200 quilogramas e alguns deles podem ter sido carnívoros. Os maiores equidnas chegavam a pesar de 20 a 30 quilogramas e chegavam à cintura de um humano. O pássaro Genyornis newtoni era duas vezes mais alto do que um humano e as tartarugas de chifre, da família Meilanidae, eram quase tão grandes quanto um “fusca”. Talvez, a espécie mais expressiva da megafauna australiana foi o lagarto monitor, de 6 metros de comprimento (tão grande quanto um Allossauro de tamanho médio). As tartarudas, o lagarto monitor, o Genyornis e todas as espécies de marsupiais que pesavam mais de 100 quilogramas se extinguiram no final do Pleistoceno (Gillespie et al. 1978; Martin & Klein, 1984; Miller et al. 1999).

Diprotodon

Genyornis newtoni

O que causou estas extinções dos grandes animais ao final do Pleistoceno? Alguns pesquisadores especulam que os efeitos anteriores da alteração climática do Mioceno e da Glaciação Wisconsin, a qual atingiu seu pico entre 20000 a 15000 anos, foram as causas primárias das extinções da megafauna (lembrando que o Pleistoceno teve início há 1,7 mlhão de anos, durando até cerca de 10000 anos atrás). O novo elemento que entrou em cena ao final do Pleistoceno foi os humanos caçadores, com suas ferramentas líticas e com suas matanças sociais. A hipótese de que a grande quantidade de caçadas humanas foi a principal causa tem sido fortalecida por Paul Martin, da Universidade do Arizona (Martin & Klein, 1984; Diamons, 1989; Martin, 1990; Stuart, 1991). Outra hipótese também identifica os humanos como a causa das extinções, mas propões que elas foram causadas pela introdução de novas doenças e pelo uso do fogo na alteração de habitats, mais do que a caça intensiva, ou que uma taxa reprodutiva baixa dessas espécies foi o caráter peculiar que as levou à extinção como um resultado das atividades humanas (Johnson, 2002).
Que tipos de informação apontam os humanos como causas, diretas ou indiretas, das extinções do Pleistoceno? O argumnento mais contundente a favor da culpa humana é a aparente correspondência temporal da chegada dos humanos aos continentes e às ilhas e a extinção da megafauna. As primeiras extinções parecem ter ocorrido na Austrália, em algum momento entre 50000 e 40000 anos. Na América do Sul e na do Norte, ao menos oito espécies de grandes mamíferos sobreviveram até cerca de 10000 anos. Os humanos colonizaram ilhas após continentes, e as extinções ocorreram entre 10000 e 4000 anos nas ilhas do Mar Mediterrâneo, há 4000 anos nas ilhas do Oceano Ártico, norte da Rússia, há 2000 anos em Madagascar e há apenas algumas centenas de anos nas ilhas do Oceano Pacífico.

Disperção das populações humanas. Os humanos deixaram a África cerca de 100000 anos atrás e se dispersaram em direção ao leste da Eurásia e entrando pelas Américas. As datas de extinções da megafauna do Pleistoceno correspondem às estimativas de quando os humanos chegaram à Austrália, as Américas e as grandes ilhas como Nova Zelândia, Madagascar e as ilhas ao norte da Sibéria.

Essas extinções ocorreram tanto antes quanto depois da Glaciação de Wiscosin, em momentos nos quais os climas não estavam se alterando rapidamente. Além disso, a maioria das espécies de aves e mamíferos que se extinguiram eram grandes, enquanto que as espécies pequenas foram bem menos afetadas. Juntos, esses fatores apontam os humanos, ao invés da alteração climática, como a razão primária para as extinções. Mas como um número relativamente pequeno de humanos poderia provocar efeitos continentais sobre as faunas, as quais sobreviveram a sucessivos avanços e retrações glaciais?

Humanos Caçadores da Idade da Pedra

Na América do Norte, altas taxas de extinção de mamíferos ocorreram, principalmente após os picos da Glaciação de Wisconsin. Mastodontes, mamutes e preguiças gigantes se extinguiram há cerca de 10000 anos. Martin especula que os grandes mamíferos eram caçados por humanos nômades invasores e algumas ecidências arqueológicas corroboram essa visão. Sítios de matança foram encontrados com muitos ossos de diversos indivíduos das espécies caçadas, às vezes com marcas de corte por instrumentos líticos e com pontas de flechas presas nesses ossos.
Parte da evidência dessas grandes caçadas é muito forte. Onze espécies de moa (aves gigantes que não voavam) existiam na Nova Zelância quando os Maori chegaram, no final do século XIII, e parece que essas espécies todas se extinguiram há uma centena de anos. O papel dos caçadores Maori na extinção dos mos é amplamente documentado. Na Ilha Norte, na Nova Zelândia, um sítio de descarnamento foi descoberto nas dunas de areia em Koupokonui. Os restos de centenas de indivíduos de três espécies de moa foram encontrados em e próximos a fogueiras. Cabeças e pescoços crus de moa foram deixados de lado até que apodrecessem, enquanto as pernas eram assadas. Em Wairau Bar, na Ilha Sul, o chão esta repleto de ossos de moa, com uma estimativa de 9000 indivíduos e 2400 ovos. e em Waitaki Mouth existem restos de um número estimado de 30000 a 90000 moas (Flannery, 1995; Holdway & Jacomb, 2000).

Doenças e Fogo

Doenças transmitidas a outras espécies, por humanos e por animais associados a eles, também podem ter um papel nas extinções da megafauna (MacPhee, 1999). Embora não haja ecidências paleontológicas de doenças na megafauna do Pleistoceno, doenças infecciosas emergentes, atualmente, ameaçam tanto a biodiversidade quanto a saúde humana (Daszack et al., 2000). Exemplos modernos de transmissão de doenças a partir de animais domésticos paa os selvagens aparecem muito – dentro das duas últimas décadas, leões e cães selvagens foram infectados por raiva, transmitida por cães domésticos. Os cães selvagens (Lycaon pictus), atualmente, estão praticamente extintos nas planícies de Serengeti. Há menos de um século, as matilhas consistem de cerca de 10 adultos. A população de cães selvagens no Serengeti é de menos de 60 animais, e toda a população sobrevivente de espécie não ultrapassa os 5000 indivíduos.

Lycaon pictus

Outros exemplos de transmissão de doenças dos humanos para os animais domésticos e silvícolas existem em grande número: a raiva tem matado uma porcentagem substancial dos aproximadamente 500 lobos remanescentes na Etiópia, o parasita Toxoplasma gondii encontrado nas fezes dos gatos domésticos tem matado um grande número de lontras marinhas (Dixon, 2003) e o vírus Ebola é responsável pela morte de milhares de gorilas e chimpanzés (Walsh et al., 2003; Leroy et al., 2004). Gorilas selvagens das montanhas, em Uganda, tem contraído sarnas de carrapatos parasitas dos casacos descartados pelos turistas (Graczyk et al., 2001), e se o sarampo ou a tuberculose alcançarem as populações de gorilas o resultado será devastador. Um novo problema tem ocorrido com a descoberta de que o vírus da influenza B causou a infecção respiratória nas focas da região do porto na costa da Holanda, e agora as focas são um reservatório desse vírus que pode representar uma ameaça para os humanos (Osterhanus et al., 2000).

Toxoplasma gondii

Em geral, uma nova doença introduzida não mata todos os indivíduos de uma população anteriormente saudável. Alguns deles sobrevivem, talvez porque sejam resistentes ou porque têm sorte de não terem entrado em contato com a doença. Todavia, uma doença que reduz drasticamente o número de indivíduos de uma espécie pode iniciar um processo que leva à extinção, e isso pode estar acontecendo com algumas populações de cães selvagens africanos (Gorman et al., 1998). O método de caça dos cães selvagens – a perseguição prolongada do antílope até que um indivíduo seja capturado – é de grande gasto energético. Uma matilha de cães selvagens caça cooperativamente, com indivíduos se revezando entre a caça e o descanso. A redução drástica do tamanho das matilhas significa que cada cão deve trabalhar mais. Para piorar as coisas, hienas (Crocuta crocuta) roubam as caças dos cães selvagens e uma pequena matilha, provavelmente, tem mais dificuldade de se defender do que os grupos grandes. Cães selvagens geralmente caçam por cerca de 3,5 horas ao dia, e os cálculos de custo energético da caça e a energia obtida da mesma mostram que ela apenas atinge as necessidades diárias para esta função. Se as hienas roubam parte da caça, os cães precisam aumentar o tempo gasto na obtenção de alimento. Uma perda de caça de 10 por cento forçaria os cães a dobrar seu tempo na atividade, e uma perda de 25 por cento os obrigaria a passar 12 horas caçando. Os cães já estão trabalhando próximos ao seu limites fisiológicos quando caçam por 3,5 horas por dia, e provavelmente não podem sobreviver se perdem muito de seu alimento para as hienas. Assim, uma redução drástica do tamanho da matilha cria um cenário para a interação competitiva com as hienas e esse interação pode ser o fator que leva os cães selvagens à extinção.

Crocuta crocuta

Com os humanos modernos veio o uso do fogo na manipulação do habitat. O Genyornis newtoni era uma ave incapaz de voar que habitava as planícies continentais e algumas áreas costeiras da Austrália quando os primeiros humanos chegaram, há cerca de 50000 anos. Embora o Genyornis fosse uma ave maior e mais encorpda que o emu (Dromaius novahollandie), há apenas um sítio com evidências humanas de sua caça. A razão pela qual o Genyornis foi extinto e o emu sobreviveu pode estar relacionada com os seus habitos alimentares. O emu se alimenta de uma grande variedade de itens, incluindo gramíneas, enquanto a composição química das cascas dos ovos de Geniornis sugere que se alimentavam de folhas de plantas arbustivas. Incêndios naturais era um elemento da paisagem australiana muito antes da chegada dos humanos. Esses incêndios ocorriam durante a estação seca, retornando somente quando a vegetação estava totalmente recuperada a ponto de criar material combustível suficiente para sustentar um novo incêndio. Os primeiros habitantes da Austrália podem ter iniciado incêndios em outros momentos do ano, a intervalos menores do que os do ciclo natural. Um regime de queimadas mais frequentes pode ter convertido as terras, dominadas por arbustos e gramíneas (características atual das grandes planícies australianas) dos quais dependiam os Genyornis. Assim, a modificação do habitat, produzida por novos regimes de queimada criados por humanos, pode ter sido a responsável pela extinção do Genyornis. Os grandes mamíferos herbívoros que se extinguiram na Austrália também se alimentavam de gramíneas, e as mesmas alterações ambientais pode ter sido responsáveis pelo seu desaparecimento (Miller et al., 1999; Flannery, 1999).

Dromaius novaehollandie

O Papel do Clima

Muitos pesquisadores sugerem que as alterações climáticas e sua influência sobre a disponibilidade ambiental foram tão importantes quanto os humanos na produção das extinções. Sob tal visão, grandes mamíferos são mais suscetíveis ao estresse ambiental do que espécies pequenas. Restirções severas de alimento e de disponibilidade de água e a eliminação de corredores migratórios para habitats mais apropriados afetam os mamíferos grandes, com suas correspondentes necessidades também grandes, mais do que afetam os pequenos animais. Dessa maneira, os grandes mamíferos norte-americanos poderiam já se encontrar em declínio quando a caça intensiva praticada pelos humanos teve início, ou alterações de clima e de habitat podem ter matado os últimos indivíduos restantes de uma espécie.
Dale Guthrie ( citado em Martin e Klein, 1984) apontou que a maioria das teorias climáticas sobre a extinção do Pleistoceno era muito ambígua e difusa para explicar este grande evento, entretanto, elas eram eficientes para determinar os estresses ambientais. Na tendência generalizada de substituição de florestas fechadas por estepes e savanas mais abertas dominadas por gramíneas, Guthrie vê o aumento da sazonalidade como um fator de significância primária. A tendência climática, ao longo de toda a era Cenozóica, foi a de uma temporada mais curta de crescimento em grandes latitudes. No início, esta tendência aumentou o aspecto mosaico das florestas, dos arbustos e dos campos em todo o mundo. Este aumento da complexidade da vegetação sustentava uma fauna diversa e grande.
Na realidade, a disperção das gramíneas promoveu a disperção da fauna. Respondendo à disperção dos campos, os ungulados (animais com casco nas patas), geralmente grandes, atingiram seu máximo de diversidade no Mioceno Médio, contribuindo significativamente para o número de gêneros de mamíferos conhecidos daquela época. Mas conforme a tendência a extremos sazonais de temperatura e de aridez no Pleistoceno continuou, a diversidade da vegetação entrou em declínio. A flora, por grandes áreas continentais, se alterou de um mosaico de associações entre plantas para uma zonação latutudinal e altitudinal de amplos grupos de comunidades vegetais de baixa diversidade. A mais baixa diversidade de floras e a maior homogeneidade regional atingiram seus máximos após o avanço da glaciação de Wiscosin. A redução da diversidade vegetal pode ter eliminado alguns herbívoros, especialmente os grandes, restingindo todas as espécies a áreas limitadas.

Continua…


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Briozoários

23/09/2009 at 09:13 (Briozoários, Conservação, Invertebrados, Lofoforados)

Bryozoa, com aproximadamente 5000 espécies viventes, é o maior, o mais bem conhecido e o mais amplamente distribuído dos táxons lofoforados. Briozoários são bentônicos e coloniais; a maior parte das espécies vive fixa a substratos duros, mas um gênero é solitário e alguns formam colônias móveis. As colônias, as quais não se parecem muito com animais, podem ser grandes, mas cada uma é composta de numerosos zoóides diminutos que, sem dúvida, são animais. Bryozoa está entre os principais táxons animais, mas como suas colônias são pouco evidentes e frequentemente têm aspecto de plantas, passa despercibido pela maioria das pessoas que as consideram como algas ou musgos. De tão parecidos com plantas, alguns briozoários têm seus esqueletos tingidos de verde e vendidos em pequenos vazos como “samambaias aéreas” para turistas. Grande parte é marinha, mas cerca de 50 espécies vivem em água doce. Devido a muitos briozoários terem exoesqueleto calcário, há um registro fóssil extenso.
A maior parte vive em águas costeiras, fixa a rochas, pilares de ancoradouros, conchas, madeira, outros animais e superfície de grãos de areia individuais. Algumas espécies solitárias do gênero Monobryozoon vivem e movem-se pelos espaços intersticiais de areia marinha. Algumas cavam em substratos calcários. Uns poucos briozoários vivem em substratos moles. A colônia em forma de escudo de Cupuladria doma alcança o tamanho de uma moeda pequena. Ela permanece livre sobre o fundo, com as paredes frontais dos zoóides voltadas para cima.

Monobryozoon

Monobryozoon

Cupuladria cavernosa

Cupuladria cavernosa

Do ponto de vista econômico, os briozoários marinhos são um dos mais importantes grupos de organismos degradantes de fundos de navios. Cerca de 120 espécies, entre as quais as Bugula são as das mais abundantes, têm sido removidas de cascos de navio. Nas costas nordeste e noroeste dos Estados Unidos, Membranipora membranacea, em briozoário rendado introduzido, enfraquece as frondes das grandes algas pardas da ordem Laminariales (kelps), levando-as a se quebrar e assim destruindo hábitats para peixes, como o bacalhau jovem, e vários invertebrados, incluindo o ouriço-do-mar verde Strongylocentrotus drobachiensis.

Bugula_sp_a

Bugula sp

Membranipora membranacea

Membranipora membranacea

Strongylocentrotus drobachiensis

Strongylocentrotus drobachiensis

RUPPERT, E. E., FOX, R.S., BARNES, R.D. Zoologia dos Invertebrados – Uma Abordagem Funcional-evolutiva. 7ª Edição, Editora Rocca, São Paulo, 2005.

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Tuatara

21/09/2009 at 05:30 (Conservação, Répteis, Sphenodontidae, Vertebrados)

Os Sphenodontidae eram um grupo diversificado durante a Era Mesozoica (251 a 144 milhões de anos), incluindo formas marinhas, arborícolas e terrestres, tanto insetívoras quanto herbívoras. As formas do Triássico (251 milhões de anos) eram pequenas, com comprimento corporal de apenas 15 a 35 centímetros, mas durante os Períodos Jurássico e Cretáceo (206 e 144 milhões de anos, respectivamente) alguns Sphenodontidae chegaram a 1,5 metros de comprimento. A maioria dos Sphenodontidae do Triássico possuía dentes fundidos às maxilas (acrodonte), como no tuatara atual (Sphenodon), mas outras espécies possuíam dentes ligados às maxilas, principalmente por suas superfícies laterais (pleurodonte), como acontece com alguns lagartos.

Sphenodon

Sphenodon

As duas espécies de Sphenodon, conhecidas como tuatara, são os únicos Sphenodontidae atuais (“tuatara” é uma palavra Maori que significa “espinhos nas costas” e não se acrescenta “s” para formar o plural). Os tuatara habitaram, inicialmente, as ilhas do Norte e do Sul da Nova Zelância mas o advento dos humanos e seus associados (gatos, cães, ratos, carneiros e cabras) exterminou-os do continente.
Atualmente, populações são encontradas somente em cerca de 30 pequenas ilhas, ao largo da costa.
Os tuatara têm sido inteiramente protegidos na Nova Zelândia, desde 1895, mas apenas uma espécie, Sphenodon punctatus, foi reconhecida. De fato, existe uma segunda espécie de tuatara, S. guentheri, descrita em 1877. Devido ao fato de Sphenodon guentheri ser muito menos comum que S. punctatus, ele foi esquecido quando as leis de proteção ao tuatara foram escritas. Como resultado disso, S. guentheri não recebeu a proteção especial de que necessitava. A única população sobrevivente de S. guentheri consiste  em um grupo de menos de 300 adultos vivendo em 1,7 hectares de cerrado, no alto de North Brother Island. Esses animais foram considerados pouco importantes, em uma perspectiva conservacionista, se comparados às grandes populações de S. punctatus em algumas outras ilhas. Provavelmente, foi apenas a presença de um farol, ocupado até 1990 por guardas residentes, impedindo invasões a caça ilegal, que salvou o tuatara. A população de S. guenteri de East Island (a única outra população dessa espécie) tornou-se extinta durante este século. Esse exemplo ilustra o papel crucial que a taxonomia tem na conservação – uma espécie precisa ser reconhecida antes que possa ser protegida.

Sphenodon punctatus

Sphenodon punctatus

Sphenodon guentheri

Sphenodon guentheri

POUGH, H. F., JANIS, C. M. & HEISER, J. B. A Vida Dos Vertebrados 4ª Edição, Atheneu Editora, São Paulo, 2008.

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Pérolas

27/08/2009 at 12:03 (Conservação, Invertebrados, Moluscos)

Apesar das conchas dos bivalves serem fortemente fixadas à musculatura, ocasionalmente alguns corpos estranhos, tais como um grão de areia ou um parasita, penetram no espaço existente entre a concha e o animal. O objeto torna-se um núcleo em volta do qual são depositadas camadas concêntricas de nácar da concha, resultando na formação de uma pérola. Se o objeto se move com frequência durante a secreção, a pérola pode ser esférica ou ovóide. Mais comumente, porém, a pérola em desenvolvimento é aderida à concha ou torna-se completamente embutida nesta.
Pérolas podem ser produzidas pela maioria dos moluscos que possuem concha, mas somente aqueles com hipóstraco (camada mais interna da concha) nacarado produzem pérolas com valor comercial. As pérolas naturais mais requintadas são produzidas pelas ostras perlíferas Pinctada margaritifera e P. mertensi, que habitam o Pacífico tropical e subtropical.

Pinctada margaritifera

Pinctada margaritifera

As fases do crescimento de espécies cultivadas com finalidades comerciais são bem conhecidas. Ostras (Ostreidae), por exemplo, atingem tamanho comercializável de um a três anos dependendo da espécie, latitude, e várias outras condições ambientais. Ostras recém-assentadas, chamadas sementes, são coletadas por meio de placas de cerâmica, gravetos ou outros objetos e deixadas para crescer até poucos centímetros de comprimento. Essas sementes de ostra são, então, distribuídas sobre balsas de cultivo, nas quais crescem até o momento da sua colheita. Em bancos naturais de ostras, a média de vida desses organismos é ainda incerta. Certamente alguns indivíduos vivem mais do que 10 anos.
Há dois métodos de produção de pérolas cultivadas, iniciando-se com um núcleo-semente e com um núcleo em forma de conta. Algumas pérolas cultivadas são iniciadas a partir de fragmentos microscópicos, “sementes”, removidos de conchas de bivalves de água doce (unionídeos), e cada semente colocada dentro do espaço extrapalial de uma ostra perlífera. A ostra reveste a semente com uma camada de nácar, de maneira a produzir uma pérola-semente de um ano, que é então transplantada para uma outra ostra. Uma pérola de tamanho comercial é obtida três anos após o transplante.
Pérolas obtidas pelo método de núcleos em forma de contas são produzidas mais rapidamente, por serem iniciadas a partir de contas esféricas, também removidas da concha de um bivalve de água doce. Essas contas são, de fato, apenas um pouco menores do que as pérolas finais. A conta é envolvida em um fragmento do tecido do manto e transportada para o interior do lobo do manto ou de outros tecidos (frequentemente a gônada) de uma outra ostra perlífera. Uma fina camada superficial de nácar, com cerca de 1 mm de espessura, é então depositada ao redor da conta.
Em torno de 12 espécies de bivalves de água doce nativas da América do Norte, ocorrendo de Wisconsin até o Alabama, suprem em torno de 95% da demanda pelo estoque de contas, proveniente da indústria de pérolas que emprega esse tipo de iniciador. Em 1994, 2700 toneladas desses bivalves nativos foram extraídas para esse propósito, somente no Tenessee. Recentemente, novas técnicas vêm sendo desenvolvidas para o cultivo de pérolas de alta qualidade em bivalves de água doce, mas infelizmente os novos métodos continuam a depender de contas removidas de outros bivalves de água doce. A fauna nativa extremamente diversificada de bivalves do sudoeste dos Estados Unidos esta ameaçada por atividades humanas, incluindo extrativismo, assoreamento, represamentos, poluição e a introdução de espécies exóticas.

RUPPERT, E. E., FOX, R.S., BARNES, R.D. Zoologia dos Invertebrados – Uma Abordagem Funcional-evolutiva. 7ª Edição, Editora Rocca, São Paulo, 2005.

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Tartarugas Doentes

11/08/2009 at 09:50 (Conservação, Répteis, Testudines, Vertebrados)

O jabuti-do-deserto (Gopherus agassizi) é um dos maiores quelônios terrestres da América do Norte. Sua distribuição geográfica inclui o canto sudoeste de Utah, o terço sudoeste do Arizona, partes adjacentes de Nevada e da Califórnia e se estende para o sul até o México.

Gopherus agassizi

Gopherus agassizi

As populações de jabutis-do-deserto declinaram desde a década de 1950, à medida que a atividade humana invadia o habitat do deserto. Entre 1979 e 1989, a maioria das populações de jabutis do desertos de Mohave e Colorado diminui de 30 a 70 por cento. A situação tornou-se ainda mais grave com o aparecimento da doença das vias respiratórias superiores (DVRS), que ataca os jabutis-do-deserto, muitas vezes com resultados fatais. De início, os quelônios infectados apresentavam corrimento nasal, que se torna progressivamente pior até que os animais exsudam espuma pelas narinas, ofegam ao respirar, param de comer, definham e por fim morrem. Em 1988, os jabutis da Área Natural dos Jabutis-Do-Deserto, no Condado de Kern, Califórnia, apresentaram pela primeira vez os sintomas da DVRS (Jacobson et al., 1991). Em 1989, foram encontrados 627 jabutis mortos e 43 por cento dos jabutis vivos da Área Natural apresentavam sintomas da DVRS.

O defluxo nasal e os olhos inchados são sinais de que este jabuti esta infectado com Mycoplasma, que causa doença das vias respiratórias superiores

O defluxo nasal e os olhos inchados são sinais de que este jabuti esta infectado com Mycoplasma, que causa doença das vias respiratórias superiores

Uma grande quantidade de bactérias foi cultivada a partir dos dutos nasais de tartarugas doentes, incluindo Mycoplasma, que mais tarde foi identificada como o agente causador da doença (Jacobson et al. 1995). Os jabutis-do-deserto são animais de estimação populares no sudoeste  do deserto e um grande número de quelônios domésticos esta infectado por Mycoplasma. A infecção talvex tenha sido introduzida na Área Natural do Jabutis-Do-Deserto quando jabutis de estimação foram soltos, e sua propagação teria se acelerado devido ao mau estado físico dos jabutis selvagens, resultante da degradação do habitat e de uma seca prolongada. As infecções por Mycoplasma são notoriamente de difícil cura. Os jabutis cativos podem ser tratados com uma combinação de antibióticos, mas não há um tratamento prático para os jabutis selvagens.

Mycoplasma

Mycoplasma

A DVRS foi registrada atualmente em uma população de jabutis-toupeira (Gopherus polyphenus) da ilha Sanibel, ao largo da costa da Flórida. Mais uma vez parece que jabutis cativos introduziram a infecçõ na população selvagem: até 1978 soltavam-se na ilha Sanibel os jabutis usados em corridas, os quais, infectados, podem ter carregado consigo a bactéria Mycoplasma.

Gopherus polyphemus

Gopherus polyphemus

Esses exemplos enfatizam o risco de soltar em populações selvagens animais que foram mantidos em cativeiro. Os programas de reprodução em cativeiro devem tomar medidas extraordinárias para garantir que os animais que serão soltos passem por um período de quarentena, em instalações isoladas de outros animais. Uma colônia reprodutiva deveria ser auto-suficiente; uma vez estabelecida, nenhum animal externo deveria entrar ou sair. Mesmo as vestimentas dos tratadores dos animais carregam agentes patogênicos, por isso deve ser providenciado um vestiário onde os tratadores possam se lavar e trocar de roupa ao entrar e sair. Essas precauções exigem tempo e dinheiro, mas pode ser desastroso negligenciá-las.

JACOBSON, E.R. et al. Chronic upper respiratory disease of free-ranging desert tortoises (Xerobates agassizi). Journal of Wildlife Diseases 27:296-316, 1991.

JACOBSON, E.R. et al. Mycoplasma and the desert tortoise (Gopherus agassizii) in Las Vegas Valley, Nevada. Chelonian Conservation and Biology 1:279-284, 1995.

POUGH, H. F., JANIS, C. M. & HEISER, J. B. A Vida Dos Vertebrados 4ª Edição, Atheneu Editora, São Paulo, 2008.

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Conservação Dos Testudines

06/08/2009 at 06:14 (Conservação, Répteis, Testudines, Vertebrados)

Muitas espécies de quelônios apresentam baixas taxas de cescimento e requerem longos períodos para atingir a maturidade. Essas são características que predispõem uma espécie ao risco de extinção quando condições variáveis aumentam a mortalidade dos adultos ou eduzem drasticamente a entrada de jovens na população. A situação difícil dos grandes jabutis e das tartarugas marinhas é particularmente séria, em parte porque essas espécies estão entre as maiores e de crescimento mais lento, e também porque outros aspectos de sua biologia as expõem a riscos adicionais.

Uma tartaruga-verde com papilomas cutâneos. Esses tumores, provalvemente causados por um vírus, foram encontrados na maioria das espécies de tartarugas marinhas e em quase todo o mundo (Herbst, 1994). Os tumores crescem até atingir mais de 30 centímetros de diâmetro e aparecem em qualque superfície coberta de pele. São especialmente comuns na conjuntiva dos olhos e podem crescer sobre a córnea. Não foram registrados tumores nas tartarugas-verdes da lagoa Indian River, Flórida, até 1982; mas em 1994 cerca de 50 por cento das tartarugas-verdes estavam afetadas. O primeiro registro de papiloma nas tartarugas-verdes na baía de Kaneohe, Havaí, ocorreu em 1958. Desde 1989, a incidência variou de 49-92 por cento. Os tumores podem ser fatais e o aumento de sua frequência é um desenvolvimento sinistro para espécies já ameaçadas (Herbst, 1994).

Uma tartaruga-verde com papilomas cutâneos. Esses tumores, provalvemente causados por um vírus, foram encontrados na maioria das espécies de tartarugas marinhas e em quase todo o mundo (Herbst, 1994). Os tumores crescem até atingir mais de 30 centímetros de diâmetro e aparecem em qualque superfície coberta de pele. São especialmente comuns na conjuntiva dos olhos e podem crescer sobre a córnea. Não foram registrados tumores nas tartarugas-verdes da lagoa Indian River, Flórida, até 1982; mas em 1994 cerca de 50 por cento das tartarugas-verdes estavam afetadas. O primeiro registro de papiloma nas tartarugas-verdes na baía de Kaneohe, Havaí, ocorreu em 1958. Desde 1989, a incidência variou de 49-92 por cento. Os tumores podem ser fatais e o aumento de sua frequência é um desenvolvimento sinistro para espécies já ameaçadas (Herbst, 1994).

A conservação dos jabutis e das tartaugas marinhas é um assunto de interesse intercional e levou à fundação de uma nova publicação, Chelonian Conservation and Biology.
Os maiores jabutis atuais são encontrados nas ilhas Galápagos e Aldabra. O relativo isolamento dessas massas de terra pequenas e inóspitas (para os humanos) provavelmente tem sido um fator importante para a sobrevivência dos jabutis.  A colonização humana das ilhas trouxe consigo animais domésticos, como cabras e asnos, que competem com os jabutis pelas quantidades limitadas de vegetação que são encontradas nesses habitats áridos, além de cães, gatos e ratos, que predam ovos e filhotes de jabutis.
A distribuição geográfica limitada de um jabuti que ocorre em uma única ilha torna-o vulnerável à extinção. Em 1985, e novamente em 1994, as queimadas na ilha Isabela, no arquipélago de Galápagos, puseram em risco os 20 indivíduos remanescentes de Geochelone guntheri e enfatizaram a vantagem de deslocar alguns ou todos os Testudines até a estação de reprodução operada pela Estação de Pesquisas Charles Darwin, na ilha Santa Cruz. Essa estação bateu recordes de sucessos na reprodução e liberação de outra espécie de jabuti de Galápagos, G. nigra hoodensis, nativa da ilha de Española. No início da década de 1960, apenas 14 indivíduos dessa espécie foram localizados. Todos eram adultos e aparentemente não haviam se reproduzido com sucesso havia muitos anos. Todos os jabutis foram transferidos para a Estação de Pesquisas, onde se produziram os primeiros filhotes em 1971. Em 24 de março de 2000, o milésimo jabuti nascido em cativeiro foi solto em Española. Essa história de sucesso mostra que os programas de reprodução em cativeiro e soltura, cuidadosamente controlados, podem ser um método eficaz de conservação de espécies de Testudines ameaçados. Entretanto, esses programas também trazem riscos inerentes.

Geochelone guntheri

Geochelone guntheri

G. nigra hoodensis

G. nigra hoodensis

Faunas inteirs de quelônios estão ameaçadas em algumas áreas. Quase todas as espécies de quelônios do Sudeste Asiático estão hoje em risco por causa das mudanças econômicas e políticas na região (van Dijk et al., 2000). Na China, os quelônios são tradicionalmente utilizados como alimentação e por seus supostos benefícios medicinais. Uma pesquisa de dois dias em apenas dois entrepostos de alimentos chineses encontrou cerca de 10000 quelônios à venda. Se a rotatividade da mercadoria for de uma semana, numa estimativa conservadora, então aqueles dois entrepostos consumiriam mais de 250000 quelônios po ano. Quando esa tava é extrapolada para todos os entrepostos chineses, a estimativa sobe para 12 milhões de quelônios vendidos por ano somente na China (Altherr e Feyer, 2000).
Os Testudines são animais de vida longa e com baixo índice reprodutivo, e essas são exatamente as características erradas para resistir com sucesso à predação intensa. Bem pouco se conhece sobre a história natural dos Testudines chineses. Na verdade, algumas espécies como Cuora mccordi, só são cientificamente conhecidas a partir de espécimes adquiridos em entrepostos – populações selvagens nunca foram descritas. Talvez essas espécies nunca venham a ser conhecidas em estado selvagem; há vários anos não se vêem espécimes nos entrepostos e é possível que a espécie esteja extinta.

Cuora mccordi

Cuora mccordi

À medida que se esgotam as populações de Testudines na China, esses animais vêm sendo cada vez mais importados de outros países do Sudeste Asiático. Como a China é um país gigantesco e a movimentação interna é restringida, especialmente para estrangeiros, não há dados disponíveis. Registros de Hong-Kong mostram que a importação de Testudines para fins alimentares cresceu de 139200 quilos em 1977 para 1800024 quilos aoenas nos primeiros dez meses de 1994. Estima-se que o Vietnã envie de 1600 a 16000 quilos de Testudines por dia para a China! Não existe qualquer controle efetivo desse tráfico. Espécies protegidas por leis nacionais e convenções internacionais estão incluídas e os Testudines são coletados em reservas naturais.
Embora a China seja considerada o maior “buraco negro” de Testudines (Behler, 2000), ela de modo algum está sozinha. Madagascar é o lar de muitas outras espécies em perigo, inclusive jabutis. Mesmo protegidas por tratados internacionais, essas espécies são contrabandeadas para fora do país em grandes quantidades a fim de serem vendidas como animais de estimação no Japão, na Europa e na América do Norte, onde atingem altos preços. Nos Estados Unidos, as espécies protegidas são coletadas e vendidas ilegalmente como animais de estimação; as espécies que estão em maior perigo de extinção alcançam os preços mais altos. Além disso, todas as espécies de Testudines enfrentam ameaças que vão desde a morte nas estradas e a perda do habitat até servirem de alvo para atiradores quando tomam sol sobre um tronco. Não seria exagero dizer que “os Testudines estão com um terrível problema” (Rhodin, 2000). A crise de conservação dos Testudines é tão séria quanto aquela enfrentada pelos anfíbios.

ALTHERR, A. & FREYER, D. Asian turtles are threatenes by extinction. Turtle and Tortoise Newsletter. Nº 1:7-11, 2000.

BEHLER, J. Letter from the IUCN tortoise and freshwater turtle specialist group. Turtle and Tortoise Newsletter. Nº 1:4-5, 2000.

HERBST, L. H. Fibropapillomatosis of marine turtles. Anual Review of Fish Diseases, 4:389-425, 1994.

POUGH, H. F., JANIS, C. M. & HEISER, J. B. A Vida Dos Vertebrados 4ª Edição, Atheneu Editora, São Paulo, 2008.

RHODIN, A. G. Publishers Editorial: Turtle Survival Crisis. Turtle and Tortoise Newsletter. Nº 1:2-3, 2000.

VAN DIJK, P. P. ei al. (eds). Asian turtle trade. Chelonian Research Monographs, Nº2. Lunenburg, MA: Chelonian Research Foundation, 2000.

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Por Que Os Anfíbios Estão Desaparecendo?

05/07/2009 at 17:16 (Anfíbios, Conservação, Vertebrados)

Biólogos de muitos países reuniram-se na Inglaterra, em 1989, no Primeiro Congresso Mundial de Herpetologia. Em umaa semana de apresentações formais de estudos científicos e conversas casuais às refeições e nos corredores, os participantes descobriram que uma poporção alarmantemente grande deles conhecia populações de anfíbios que antes eram abundantes e agora eram raras ou até haviam desaparecido por completo. Acontecimentos que pareciam casos isolados passaram a ser vistos como partes de um padrão global. Como resultado dessa descoberta, David Wake, da Universidade da Califórnia em Berkeley, persuadiu a Academia Nacional de Ciências a convocr um encontro de biólogos preocupados com o desaparecimento dos anfíbios. Biólogos do mundo todo se reuniram no centro da Academia, na costa oeste dos Estados Unidos, em fevereiro de 1990. Todos relataram que populações de Amphibia de seus países estavam desaparecendo, muitas vezes sem qualquer razão aparente. Depois do encontro, um esforço internacional para identificar as causas do declínio dos anfíbios foi iniciado pela “Declining Amphibian Populations Task Force Of  The World Conservation Union (IUCN)” [Força-Tarefa Para Estudar O Declínio Das Populações De Anfíbios, da Comissão Para A Sobrevivência Das Espécies, da União Para A Conservação Mundial]. Outro encontro foi convocado em 1998, dessa vez em Washington, D.C., que reuniu autoridades das mais diversas disciplinas: herpetologia, biologia populacional, toxicologia, doenças infecciosas, mudanças climáticas e políticas científicas. A conferência concluiu que “Há esmagadoras evidências de que nos últimos 15 anos ocorreu um declínio substancial e incomum na abundância e no número das populações em regiões geográficas globalmente distribuídas” (Wake, 1998). Rápidos declínios ocorreram durante os anos de 1950 e 1960 e estão continuando, embora numa taxa de alguma forma mais lenta (Houlanhan et al., 2000).
O declínio global das populações de anfíbios é alarmante, especialmente porque, em muitos casos, não sabemos porque uma espécie desapareceu dos locais onde antes era abundante. Em alguns casos, acontecimentos locais parecem fornecer uma explicação. As alterações do habitat produzidas pelo desmatamento geralmente são destrutivas para os anfíbios, por exemplo, porque os anuros e as salamandras dependem de micro-habitats frios e úmidos no chão da floresta. Quando o dossel da floresta é removido, a luz solar atinge o solo, gerando condições demasiadamente quentes e secas para os anfíbios. Atrazine, um dos herbicidas mais vastamente utilizados na agricultura, é drenado dos campos para os corpos d’água onde anfíbios se reproduzem. A exposição dos girinos de Rana pipens a concentrações de 0,1 parte por milhão produziu feminização: 36 por cento dos machos mostraram retardo no desenvolvimento gonadal e 29 por cento formaram oócitos em seus testículos (Hayes et al., 2002). A mineração e a extração de petróleo também causam danos que se estendem por grandes áreas. As pedras reiradas das minas liberam substâncias químicas ácidas ou tóxicas; o canureto usado para extrair ouro do metal envenena a água de superfície; os poços de petróleo espalham hidrocarbonetos tóxicos; nitratos e nitritos escoam das terras cultivadas e alcançam níveis que causam deformidades e a morte das larvas de anfíbios – a lista é quase interminável.

Rana pipens

Rana pipens

Algumas causas locais da mortalidade de anfíbios não são apenas evidentes: são decididamente ignóbeis. Terras federais do oeste dos Estados Unidos são arrendadas para pastagem e o gado bebe em lagoas que são os sítios reprodutivos dos anuros. O nível das lagoas cai no verão, deixam uma faixa de lama que é atravessada pelo gado em busca de água. As pegadas profundas dos cascos do gado convertem-se em armadilhas mortais para os anuros recém-metamorfoseados que caem nelas e não conseguem sair. Ainda pior, alguns anuros jovens têm o azar de estar passando atrás de uma vaca no momento errado: terminam presos e sufocados numa pilha de estrume fresco!
A meta global para o problema sugere que deveríamos procurar explicações globais (Collins & Storfer, 2003). Quatro fatores que têm provavelmente contribuído para alguns desses declínios são o aquecimento global, a chuva ácida, o aumento na radiação ultra-violeta e doenças.
Populações de anfíbios de altas altitudes, como o sapo-dourado da Costa Rica (Bufo periglenes) que pensa-se estar extinto, parece estar declinando mais rápido mesmo do que a maioria das espécies, e o aquecimento global pode ser uma das razões dessa padrão. Com o clima se tornando mais quente e mais seco nas montanhas da Costa Rica, espécies de aves das planícies moveram-se para cima e espécies de anfíbios declinaram ou desapareceram. Uma análise do efeito do aquecimento global nas florestas montanhosas do Queensland, Austrália, aponta que um acréscimo de somente 1ºC na média anual de temperatura diminuiria o habitat das espécies de altas altitudes em 65 por cento e um acréscimo de 3,5ºC, eliminaria completamente os habitats de aproximadamente metade das 65 espécies de vertebrados endêmicas às montanhas (Williams, 2003).

Bufo periglenes

Bufo periglenes

A precipitação (de chuva, neve e neblina) sobre grandes áreas do mundo, especialmente no Hemisfério Norte, é pelo menos cem vezes mais ácida do que seria se a água estivesse em equilíbrio com o dióxido de carbono no ar. A acidez extra é produzida pelos ácidos nítrico e sulfúrico que se formam quando o vapo d’água se combina com os óxidos de nitrogênio e o enxofre liberados pela queima de combustíveis fósseis. A água das lagoas de reprodução de muitos anfíbios do Hemisfério Norte tornou-se mais ácida nos últimos 50 anos e essa acidez tem efeitos diretos e indiretos sobre os ovos e larvas dos anfíbios. Os embriões de muitas espécies de anuros e salamandras são mortos ou lesados em pH5 ou inferior. As larvas que eclodem podem ser menores que o normal e às vezes possuem estranhas protuberâncias ou torções no corpo. As larvas da salamandra-pintada crescem lentamente na água ácida porque seus esforços para capturar a presa são desajeitados e elas comem menos do que as larvas que vivem em pH mais elevado (Preest, 1993).
Outro fenômeno global é o aumento da quantidade de radiação ultra-violeta que atinge a superfície da Terra como resultado da destruição do ozônio na estratosfera por poluentes químicos. Os efeitos são mais dramáticos nos polos e estão se espalhando para latitudes inferiores, em ambos os hemisférios. A responsabilidade do aumento da radiação ultra-violeta no declínio dos anfíbios é controversa e provavelmente complexa. A luz ultra-violeta, especialmente a faixa UV-B, 280 a 320 nanômetros, mata os ovos e embriões de anfíbios (Blaustein et al., 1994). Nas lagoas das Montanhas Cascade, Óregon, somente 50 a 60 por cento dos ovos de Rana cascadae e Bufo boreas sobreviveram quando expostos à luz solar incidente, porém, quando se colocou sobre os ovos um filtro bloqueador da UV-B, a sobrevivência aumentou para 70 a 85 por cento.

Rana cascadae

Rana cascadae

Bufo boreas

Bufo boreas

Por outro lado, parece que alguns sítios de reprodução não são afetados; talvez o dano causado pela radiação UV-B dependa da interação de diversas variáveis (Licht, 2003). Por exemplo, a presença de vegetação suspensa ou de turvação (partículas sólidas em suspensão na água das lagoas de reprodução) talvez bloqueie a UV-B antes que alcance os ovos dos anfíbios. Do mesmo modo, algumas substâncias químicas dissolvidas absorveriam a luz ultra-violeta, protegendo os ovos dos anfíbios. As espécies de anfíbios diferem na sensibilidade à UV-B e a resistência pode estar relacionada à quantidade de enzima fotoliase (uma enzima que repara os danos ao DNA induzidos pela radiação UV) nos ovos das diferentes espécies.
Em anos recenes, a atenção focalizou o papel das doenças no declínio global dos anfíbios e, em especial, os dois organismos que infetam os anfíbios: iridovírus e o fungo “
chytrid“. Os organismos causadores de doenças e os anfíbios tem coexistido ao longo de toda a existência destes últimos e algumas espécies de anfíbios aparentemente estabeleceram uma relação estável com seus patógenos. Por exemplo, o iridovírus intecta as salamendras de lagoas e parece ter modelado a biologia dessas populações. A salamandra-tigre (Ambystoma tigrinum), do Arizona, tem duas formas larvais: a normal e a canibal, com cabeça e mandíbulas grandes.  Algumas populações são compostas inteiramente da forma normal e em outras, alguns indivíduos se transformam em larvas canibais que comem os indivíduos da forma normal. Um levantamento da ocorrência de ambas as formas, normal e canibal, revelou que a canibal esta ausente em populações infectadas pelo iridovírus, mas ocorre com regularidade em populações sem esse vírus. Aparentemente, em populações livres do vírus é seguro comer outras larvas, mas quando o vírus está presente, a forma canibal se arrisca a infecções se comer as outras larvas de salamandra.

Ambystoma tigrinum

Ambystoma tigrinum

A correspondência entre a presença do iridovírus e a estutura da história de vida das populações de salamendra sugere que essa associação hospedeiro-patógeno é antiga e que a salamandra hospedeira e seu patógeno iridovírus desenvolveram uma relação estável. É provável que essa generalização se aplique a outros anfíbios que servem de hospedeiros ao iridovírus e, ao que parece, provoca flutuações nas populações de anfíbios, mas normalmente não é responsável por extinções.
O fungo “chytrid” talvez seja um novo patógen dos Amphibia e parece estar envolvido na extinção de sítios em locais tão distanciados quanto a América Central e o leste da Austrália. Os chytrids formam um grupo muito difundido de fungos de solo que normalmente infectaa algas, outros fungos, plantas, protozoários e invertebrados. O pimeio relato de infecção de vertebrados por chytrids surgiu em 1998, quando esse fungo foi identificado como a causa provável de morte de anuros na Austrália e América Central. No ano seguinte, chytrids foram identificados em anuros mortos no Zoológico Nacional dos Estados Unidos. Batrachochytrium, o chytridque infecta os anfíbios, possui zoósporos reprodutores móveis que vivem na água e conseguem penetrar na pele dos anfíbios. Quando penetra em um anfíbio, o zoósporo amadurece formando estruturas ramificadas, que se estendem pela pele, e um corpo reprodutor esférico, o zoosporângio. Um único zoósporo amadurece em 4 a 5 dias e se torna um zoosporângio contendo centenas de zoósporos que são liberados na água. As infecções por chytrid não parecem ser letais aos girinos, mas os anuros jovens morrem logo após a metamorfose e os adultos morrem quando são infectados.

Batrachochytrium

Batrachochytrium

O declínio dos Amphibia foi objeto de estudos especiais na América Central e no leste da Austrália, e infecções por chytrid e o declínio dos anfíbios são ambos encontados na mesma área. Na América Central, uma onda de infecção foi detectada na Costa Rica em 1988 e tem se movido para o sul numa taxa de 50 a 100 quilômetros por ano. Na Austrália, uma onda de infecção por chytrid e de declínio populacional de anfíbios talvez esteja movendo-se para o norte através de Queensland e dos Territórios do Norte.

A progressão ao sul da infecção pelo fungo "chytrid" e o declínio e desaparecimento das populações de Anura na América Central

A progressão ao sul da infecção pelo fungo "chytrid" e o declínio e desaparecimento das populações de Anura na América Central

Por que as populações de anfíbios estão repentinamente sucumbindo às infecções por chytrid? Será que os chytrids são novos patógenos dos Amphibia ou algo esta acontecendo com os anfíbios e chytrids que torna as infecções mais letais do que costumavam ser? Estudos em espécimes de museu sugerem que as infecções por chytrids talvez sejam um fenômeno novo, pelo menos em algumas áreas. As mudanças na pele, que acompanham as infecções, podem ser observdas em espécimes de museu e o exame microscópico mostra as estruturas fúngicas características. Anuros coletados há vinte anos não apresentam sinais de chytrids, o que sugere que esse fungo foi introduzido recentemente.
Também os Anura podem ter mudado no passado recente. Os anfíbios possuem um sistema imunológico que normalmente os protege dos patógenos do ambiente, porém o estresse interfere no sistema imunológico dos Vertebrata. Anfíbios estressados por causa da acidez ou da radiação ultra-violeta podem ser suscetíveis a doenças ou parasitas aos quais habitualmente seriam capazes de resistir. Como esses tipos de mecanismo de interação são difíceis de identificar, a National Science Foundation apoia um estudo multidisciplinar que combina esforços de participantes que vão desde biólogos de campo, passando por especialistas em doenças infecciosas até biólogos moleculares. Esse grupo esta envolvido em um programa multianual de estudos campais e laboratoriais para testar ipóteses sobre o papel do iridovírus e do fungo chytrid no declínio dos anfíbios e as interações desses fatores com as mudanças ambientais e as mudanças evolutivas dos organismos patogênicos. Temas ligados à biologia conservacionista rapidamente transcedem os campos específicos de estudo e nossa melhor oportunidade de encontrar soluções para os problemas agudos que afetam muitos tipos de animais esta em agrupar técnicas e perspectivas de um amplo espectro de especialidades biológicas.

COLLINS, J.P. & STORFER, A. Global amphibian declines: Sorting the hypothesis. Diversity and Distributions 9:89-98, 2003

HAYES, T. et al. Feminization of male frogs in the wild. Nature 419:895-896, 2002.

HOULAHAN, J.E. et al. Quantitative evidence for global amphibian population declines. Nature 404:752-755, 2000.

LICHT, L. E. Shedding ligth on ultraviolet radiation and amphibian embryos. Bioscience 53:551-561, 2003.

LIPS, K. R. Decline of a tropical montane amphibian fauna. Conservation Biology 12:106-117, 1998.

LIPS, K. R.  Mass mortality and population declines  of anurans at upland sites in western Panamá. Conservation Biology 13:117-125, 1999.

POUGH, H. F., JANIS, C. M. & HEISER, J. B. A Vida Dos Vertebrados 4ª Edição, Atheneu Editora, São Paulo, 2008.

PREEST, M. R. Mechanism of growth rate reduction in acid-exposed larval salamanders, Ambystoma maculatum. Physiological Zoology 66:686-707, 1993.

WAKE, D. B. Action on amphibians. Trends in Ecology and Evolution 13:379-380, 1998.

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16/06/2009 at 12:26 (Conservação, Corais, Invertebrados, Peixes, Vertebrados)

O macho do peixe-mandarim (Synchiropus splendidus, Teleostei, Callionymidae) luta por territórios sobre o topo de recifes de coral de águas rasas no Estreito de Lembeh ao norte das Ilhas Célebes, na Indonésia. Esses locais são favoráveis para as fêmeas desovarem, e os machos que controlam esses territórios desejáveis aumentam suas chances de se reproduzir.

Peixe-mandarim

Peixe-mandarim

As amplas nadadeiras e padrão de colorido dos machos atraem as fêmeas de peixe-mandarim, mas também são atrativos para os aquaristas de todo o mundo. Coleções de peixes-mandarim e outros peixes tropicais e invertebrados voltados para o comércio de aquaristas ameaçam de extinção as populações naturais locais. Soma-se a isso, a destruição acelerada, em escala global, dos habitats de corais de águas rasas associada, diretamente às invasões das populações humanas, e indiretamente ao aquecimento global.

POUGH, H. F., JANIS, C. M. & HEISER, J. B. A Vida Dos Vertebrados 4ª Edição, Atheneu Editora, São Paulo, 2008.

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Conservação Relativa aos Peixes de Recifes de Coral

16/06/2009 at 12:13 (Conservação, Corais, Invertebrados, Peixes, Vertebrados)

A evolução e a manutenção da rica fauna Vertebrata dos recifes de corais dependem de muitos fatores, incluindo a preservação das florestas de mangue e das camas de algas adjacentes que fornecem áreas de berçário para os peixes de recife de coral e produção primária que é importada para o recife por meio de correntes ou por peixes migratórios entre esses habitats. A complexa estrutura tridimensional do recife de coral é muito importante. Quando esta estrutura entra em colapso, como no caso de tempestades extremamente fortes ou quando o recife é explorado como rocha calcária para a manufatura de concreto, dinamitado para capturar peixes para o comércio de aquaristas as populações e a diversidade dos peixes desaparecem. O crescimento dos recifes vivos, em toda a extensão da bacia do Caribe tem decaído dos 50 por cento de área recoberta para 10 por cento nas últimas três décadas. Na última década um fenômeno augorento tem sido observado em todo o mundo. Os recifes de corais apresentam sinais de estresse fisiológico e estão morrendo em massa. A causa parece ser temperaturas altas incomuns na superfície dos oceanos. Os animais que constroem o recife sucumbem à exposição prolongada a temperaturas mais altas do que as normais, deixando seus esqueletos mortos expostos aos organismos que os erodem e tempestades que comprometem a estrutura tridimensional do recife. Os corais estressados pelo calor perdem as algas simbiontes que vivem com eles e transformam luz em cor, conduzindo para o termo branqueamento do coral que descreve o fenômeno.

branqueamento de coral

branqueamento de coral

Um período de dois meses de temperaturas excepcionalmente altas, no final do verão de 1998, deixou menos de 5 por cento dos recifes de Belize e da América Central Caribenha cobertos por corais vivos. No Hemisfério Sul, no verão de 1998-1999, o estresse sobre os corais, induzido pelo calor, foi documentado nos recifes internos por toda a Grande Barreira de Corais da Austrália. Em janeiro de 2001 águas quentes não usuais resultaram no pior evento de clareamento de corais já registrado na Grande Barreira de Corais. O clareamento de corais, documentado mundialmente, é um sinal de severo estresse dos corais e pode levar à morte do coral em poucos dias.
Muitas variantes – talvez muitas espécies – de algas parecem estar distribuídas entre as espécies de coral, ou até mesmo em um único indivíduo de coral. Quando a tensão ambiental alcança um limiar para um coral particular e sua variante de alga, o coral branqueia, mas pode, assim, adquirir uma outra variante algal, que confere um maior grau de tolerância ao estresse para o mutualismo coral-alga. Dessa forma, branqueamentos em escalas menores podem ser mecanismos adaptativos para os quais o coral seleciona a melhor variante algal para funcionar so condições ambientais alteradas.
Embora este seja um fenômeno muito recente para que sejam feitas previsões sobre suas consequências, se os recifes, em todo o mundo, entrarem fisicamente em colapso, a maior diversidade de vertebrados na Terra também será destruída. Os recifes cresem vagarosamente. Mesmo quando as condições permitem a regeneração, os recifes podem ser muito modificados em grandes áreas do planeta por décadas ou mais tempo. Se águas aquecidas prevalecerem no futuro, os novos recifes que poderão ser formados em novas águas aquecidas ao norte e ao sul da atual área de ocorrência levarão séculos para amadurecerem e para desenvolverem um estrutura tridimensional complexa. Sem os novos habitats, os organismos de recifes enfrentam a possibilidade de extinção em massa nos próximos anos.  Será o desaparecimento dos recifes de corais e de sua fauna maravilhosa o “grito de alerta” do planeta – o primeiro sinal do aquecimento global?

POUGH, H. F., JANIS, C. M. & HEISER, J. B. A Vida Dos Vertebrados 4ª Edição, Atheneu Editora, São Paulo, 2008.

RUPPERT, E. E., FOX, R.S., BARNES, R.D. Zoologia dos Invertebrados – Uma Abordagem Funcional-evolutiva. 7ª Edição, Editora Rocca, São Paulo, 2005.

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Conservação Relativa aos Peixes Marinhos

11/06/2009 at 16:22 (Conservação, Peixes, Vertebrados)

O modo reprodutivo da vasta maioria dos teleósteos marinhos – ovos que são deixados no ambiente sem investimento parental posterior- faz o manejo da pescaria comercial extremamente complexo. Os ovos tendem a ser pequenos, em relação ao tamanho dos peixes adultos, e são produzidos em números prodigiosos. Uma vez que os ovos pelágicos são liberados, muitos eventos determinam quantos deles sobreviverão. Alguns deles sempre são perdidos pela predação de peixes filtradores, mas eventos relacionados ao clima são menos previsíveis. A água muito quente, ou muito fria, pode matar ou interromper o desenvolvimento dos ovos e das larvas. Alterações nas correntes oceânicas, produzidas pela ação do vento e de fenômenos globais, tais como o El Niño/La Nina (aquecimento ou resfriamento das águas do Pacífico central) afetam a abundância de nutrientes e a quantidade de micro-plâncton. Já que tantas variáveis estão envolvidas, o número de indivíduos que se reproduzem em um dado ano (tamanho da reserva reprodutiva) não tem qualquer relação com o número de indivíduos na geração seguinte. Assim, um período de reprodução, rico em adultos reprodutivos, pode produzir poucos descendentes que irão sobreviver até o próximo período, se os fatores ambientais impedirem a sobrevivência dos ovos, das larvas ou dos juvenis. Inversamente, sob condições excepcionalmente favor´veis, alguns poucos adultos reprodutores podem produzir um grande número de descendentes que sobrevivem até a maturidade.
A baixa previsibilidade do tamanho da reserva futura, baseada no tamanho atual, tem sido um grande problema para o gerenciamento efeivo do manejo de pesca. Já que boa parte do tamanho futuro da população depende do ambiente vivenciado pelos ovos e pelas larvas – condições nem sempre óbvias para os pescadores e para os cientistas – é difícil demonstrar os efeitos da pesca excessiva, em seus estágios iniciais, ou os resultados diretos dos esforços de conservação.
Os problemas inerentes no manejo de pesca têm resultado na destruição de populações de peixes de valor comercial e de teias alimentares marinhas inteiras. Muitas das mais ricas companhias pesqueiras estão à beira do colapso.  O Georges Bank, o qual fica a leste do Cabo Cod, é um exemplo do que a pesca excessiva pode causar. Por anos, organizações de conservação pediram por uma redução nas capturas do bacalhau, do linguado-de-cauda-amarela e eglefim. Muitos desses peixes de fundo são pescados, também, não-intencionalmente, por redes preparadas para outras espécies. Os apelos dos conservacionistas não foram atendidos, e as populações destes peixes caíram dramaticamente na década de 1990. Em outubro de 1994, a situação era tão ruim que o governo e um grupo industrial, o Conselho de Gerenciamento da Pesca da Nova Inglaterra, direcionaram suas equipes para criar medidas que reduziriam a pesca de tais espécies a zero. Boa parte do banco de Georges permanece fechada a todos os tipos de pescaria. Assim, milhares de pescadores perderam seus empregos devido a métodos draconianos, tais como a moratória completa sobre as pescarias. Muitos deles levaram seus barcos para outras áreas ricas em peixes, tais como a costa do Atlântico Médio e o Golfo do México, e o processo de destruição irá se repetir nessas áreas. Muitas operadoras pesqueiras menores, algumas delas negócios familiares de gerações, deixaram de funcionar. O governo dos Estados Unidos tem comprado de muitos outros pescadores, e suas licenças de pesca tem sido retiradas. Após uma década de proteção completa, algumas das espécies ameaçadas pela pesca extensiva estão, novamente, no Georges Bank, mas outras não apresentam sinais de recuperação.

POUGH, H. F., JANIS, C. M. & HEISER, J. B. A Vida Dos Vertebrados 4ª Edição, Atheneu Editora, São Paulo, 2008.

Bacalhau

Bacalhau

Linguado-de-cauda-amarela

Linguado-de-cauda-amarela

Eglefim

Eglefim

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